Samuel Úria é um cantautor de excepção. Foi um dos pontas de lança da renovação da música portuguesa e do cantar em português e destacado activista da igreja baptista do panque roque da FlorCaveira.
Desde ?Teimoso? que nos disse ao que vinha e mantém-se firme. Não era do progue, falhou o proto-punk por um par de décadas, e o rap não era coisa que lhe estivesse na massa do sangue. Definia-se, com muita piada e ironia, como um neo-retro-redneck, fazedor de ?melodias rasuradas, folclore rasteiro, êxitos improváveis?, entre outras provocações e delírios. Em boa verdade, dizia-nos que as suas influências eram tão abrangentes e diversas que iam de Bob Dylan, Tom Waits e Beck a António Variações ou Marco Paulo, e sobretudo bebiam na música da América, aquela que percorria paisagens inóspitas e viajava sem destino e com estilo, bebendo de um trago ?shots? de rock, country, blues ou gospel.
Depois de uma série de aventuras em nome próprio e em colaborações com a família da FlorCaveira, reconheceu ?Nem Lhe Tocava? como o seu álbum de estreia oficial, consensualmente apreciado pelo público e pela crítica, e dedicou-se à música a tempo inteiro. Esteve uma semana a escrever canções e depois três anos a convidar amigos e a podar os derradeiros takes. O resultado foi ?O grande medo do pequeno mundo?, um disco memorável.
Seguiram-se ?Carga de Ombro? que manteve a fasquia elevada e o recente ?Marcha Atroz?, com Samuel Úria a confirmar-se como um notável artista e nome maior da música portuguesa.
É capaz como poucos de conjugar uma visão do mundo lírica, inspirada e bastante idiossincrática, com uma musicalidade plástica e inventiva, que tanto bebe na música mais popular como voa por referências mais eruditas ou mergulha no indie mais alternativo.
É o trovador de patilhas, bardo sobre-urbano e tipo descomprometido, com sentido de humor e sem medo do rídiculo e do piroso. É capaz de correr riscos e de se expôr, convencendo-nos da sua honestidade e genuinidade.
Samuel Úria tem medo de cães pequenos, é de Tondela e do Benfica e ganhou em 2014 o prémio para a melhor canção do ano da SPA, com o tema "Lenço Enxuto".
Em 2019 a SPA reconheceu Samuel Úria pela segunda vez, agora com o "Prémio José da Ponte". A distinção, destinada a destacar jovens criadores, foi justificada pela «criação de uma obra que seja já hoje reconhecida pelo público e pela crítica».